O que ainda reverbera

Tive um surto depressivo e fiquei dois meses internada em uma clínica. Entrei ali fragilizada, mas saí carregando marcas que ainda ecoam dentro de mim.Foi naquele lugar que aprendi, através das histórias e da convivência, como as comorbidades são vistas por quem não precisa conviver com elas. Aprendi que, para muitos, pessoas em sofrimento psíquico se tornam descartáveis. Que, a não ser que tenham algo financeiramente a oferecer, são deixadas ali  quase como se o objetivo fosse que fossem esquecidas.

Saí da internação em agosto de 2025, mas a internação não saiu de mim. Ela ainda reverbera no meu subconsciente. Tenho pesadelos recorrentes em que volto a morar naquele lugar. Acordo com a sensação de que nunca fui embora. Isso me afeta de uma maneira que ainda não sei controlar. Não consegui falar sobre isso em terapia  e, hoje, estou sem ela.

Lá dentro, disseram que eu era esquizofrênica. Chamavam o lugar de “recanto de paz”. Para mim, as noites eram longas e chorosas, quando eu conseguia dormir. Vivi situações que não gosto nem de descrever. Fui obrigada a participar de atividades que não queria. Quando perguntei o porquê, a jovem psicóloga não gostou da minha postura. Fui chamada de imatura.

Vi uma pessoa morrer ali dentro. Vi outra passar noites e noites em surto bipolar. Fui obrigada a assistir a cultos evangélicos não por escolha, mas porque isso influenciaria na minha alta. A fé, que deveria ser abrigo, virou imposição.Também vi coisas difíceis de esquecer: pessoas impedidas de repetir comida, algumas chegando a comer restos deixados nos pratos. Pouca equipe capacitada para muitas mulheres debilitadas. Muito silêncio. Muito abandono. Muito descaso.

Às vezes eu gostaria de voltar no tempo. Mas não posso. E também não posso me comparar com quem estava ali há mais tempo ou com outras histórias clínicas. Cada dor tem seu peso.Hoje, faço de tudo para não voltar para um lugar como aquele. Tento fazer da depressão uma espécie de companhia menos hostil  uma presença que eu aprenda a reconhecer sem me deixar engolir. Ainda tenho dias sombrios. Dias em que me falta vontade, criatividade, energia. Dias em que escrever é a única coisa que consigo fazer.

Mas eu escrevo.

E talvez isso já seja uma forma de resistência.

Ainda consigo me expressar. Não de todas as maneiras que sei. Não com a força que eu gostaria. Mas da maneira que posso. E, por enquanto, isso precisa ser suficiente.